Imponente por natureza, luxuoso por desígnio, o modelo 700 era motorizado por um oito cilindros em linha com válvulas à cabeça e pistões em alumínio, com 7,7 litros de capacidade, debitando 150cv de potência às 2800 rotações por minuto. Opcionalmente, o cliente podia encomendar uma versão 700K, equipada com um compressor tipo Roots, que elevava a potência para os 200cv às 2800 rotações por minuto, possibilitando uma velocidade máxima de 160 km/h. Ao nível da transmissão, o modelo 700 utilizava uma caixa de quatro velocidades, sendo a primeira velocidade uma relação directa e a quarta velocidade uma overdrive. A carroçaria do Mercedes-Benz 770 assentava num chassis em escada, medindo 3750 mm entre eixos e 1500 mm de largura. Em termos de suspensão, este modelo fazia uso de molas de lâmina em ambos os eixos.

Trabalhando por encomenda, a linha de montagem dos 770 fabricava também versões exclusivas do modelo, tais como a limousine Pullman, na qual podiam viajar várias personalidades no mais completo luxo, e ainda a versão Pullmansteel, um blindado destinado aos mais altos dignatários e à sua protecção. Do maior e mais caro Mercedes-Benz, foram produzidas em Untertürkheim, de 1930 a 1938, 117 unidades, com várias carroçarias, das quais 42 blindadas, na forma limousine Pullmann. O Imperador do Japão, Hiroito, adquiriu três, e para o Estado Português vieram dois em 1938.

Para além da sua blindagem, a carroçaria Pullmansteel oferecia níveis de conforto e luxo inigualáveis na série W07. O amplo interior era detalhado à mão por trabalhadores especializados, de forma a garantir que os ocupantes viajavam no mais alto requinte. Disponível em várias configurações na parte traseira, a mais popular das quais a vis-a-vis, onde as duas filas de bancos estavam face a face, podendo albergar até seis pessoas, a limousine Pullman era uma referência na época, destinada a rivalizar com modelos semelhantes da Rolls-Royce.

A história dos blindados adquiridos em nome de Oliveira Salazar, à época Presidente do Conselho de Ministros, tem na compra do Mercedes-Benz 770 Grosser um dos seus capítulos mais curiosos. Após o inconsequente atentado à bomba levado a cabo no domingo, dia 4 de Julho de 1937, quando Salazar se encaminhava para assistir à Missa da manhã, na Avenida Barbosa du Bocage, a PVDE tratou de encomendar, a 27 de Outubro de 1937, dois modelos Type 770 Grosser com carroçaria blindada Pullmansteel. A nota de encomenda foi feita através do agente da marca, em Lisboa, a Sociedade Comercial Mattos Tavares, Lda., que tratou de a passar para os escritórios da marca na Alemanha. Dada a especificidade do modelo, a encomenda tardava em chegar e por esse facto foi comprado um Chrysler Imperial, igualmente blindado, que entrou ao serviço a 22 de Novembro de 1937, tendo sido utilizado não só como veículo de Salazar, mas também como meio de fuga de oito presos políticos da prisão de Caxias.

Segundo os arquivos da fábrica, a construção dos chassis data de 18 de Janeiro de 1938 e a das carroçarias Pullmansteel de 9 de Março. Os dois automóveis foram expedidos para Lisboa a 12 de Abril. Ambos foram matriculados em Junho de 1938, em nome da PVDE e são postos à disposição dos Presidentes da República e do Conselho, General Óscar Carmona (AL-10-71, chassis #182 067) e Prof. Oliveira Salazar (DA-10-72, chassis #182 066).

Salazar, que não fora consultado sobre a aquisição destes automóveis, logo manifestou o seu descontentamento, recusando-se a utilizar o Mercedes-Benz que lhe fora atribuído, não só por ser um automóvel ostensivo, mas também porque se pensava ter sido um presente de Hitler ao Presidente do Conselho. O automóvel foi utilizado apenas uma vez, por ocasião da visita oficial do Generalíssimo Franco, em 1949. Normalmente, era aproveitado pelo motorista Raúl para transportar as visitas ao Palacete de São Bento. Daí só acusar 6000 km quando, dezassete anos depois, é mandado vender em hasta pública, pela Direcção-Geral da Fazenda. Arrematado por seis contos pelo sucateiro Alfredo Nunes que o regista em seu nome, a 9 de Fevereiro de 1955, é pouco tempo depois vendido aos Bombeiros Voluntários do Beato e Olivais, com o fim de ser aproveitado para uma ambulância. Porque o custo de transformação se revelou elevado, decidem vendê-lo, a 16 de Junho de 1956, a João de Lacerda.

Actualmente acusa no odómetro 12.949 km, por ter circulado desde 1956 com alguma frequência, já no Caramulo, para conservação da mecânica. Nunca houve necessidade de o restaurar, por estar, desde a pintura aos cromados e estofos, impecável. Até os pneus são de origem, sendo mantidos a 40 libras de pressão, não acusando gretas nos flancos, talvez por terem sido fabricados com borracha sintética tipo Buna. É, pois, considerado mundialmente o mais perfeito e bem conservado Mercedes-Benz Grosser.