Tudo começou com os ventos de guerra na Europa e no Pacífico, quando a Comissão Técnica do Estado-Maior do exército norte-americano, consciente da significativa submotorização das forças armadas, delineou um caderno de encargos para o desenvolvimento de um novo veículo ligeiro de quatro rodas motrizes, na classe de ¼ de tonelada que deveria equipar o exército, sob o conceito de um automóvel pequeno e fiável para substituir o cavalo ainda omnipresente nas actividades militares.

Além dos militares, estiveram presentes na comissão que delineou o caderno de encargos do novo veículo o presidente Frank Fenn e o engenheiro-chefe Harold Crist da American Bantam, pequena empresa que iria conceber, produzir e entregar os primeiros exemplares do Bantam BRC40 (Bantam Reconnaissance Car mod. 1940), em Setembro de 1940, ao Corpo de Intendência do Exército dos EUA para serem ensaiados durante 30 dias antes de serem aprovados.

As especificações do novo veículo eram bastante exigentes, a começar pelo peso máximo de 625 kg e, para facilitar o transporte, o comprimento máximo da carroçaria teria que respeitar o limite dos 2,032 metros e o pára-brisas deveria ser rebatível. O motor teria que desenvolver uma força de torque de 115Nm e a carga útil a transportar deveria ser de 270 kg, ou seja, o peso de três militares e respectivo equipamento de combate. Refira-se que engenheiros da Ford e da Willys-Overland estiveram presentes nos testes dos Bantam BRC40 para aprender mais sobre o novo veículo. Por haver dúvidas que a Bantam conseguisse produzir um mínimo de 75 dos seus BRC40 por dia, os desenhos originais foram entregues à Willys-Overland e à Ford tornando-se na base para o projecto do “Jeep” que conhecemos da Segunda Guerra Mundial, basicamente uma evolução do Bantam BRC40 que, ainda assim, foi produzido em 2642 exemplares, quase todos cedidos ao Reino Unido e à União Soviética.

O novo veículo “Jeep” de todo-o-terreno MB desenvolvido pela Willys (MB de Military Type B) e o semelhante Ford GPW (General Purpose Willys) foram dos primeiros veículos militares produzidos em larga escala nos Estados Unidos, constituindo um marco de engenharia, padronização e aplicação estratégica no transporte de pessoal e carga em tempo de guerra. Muito eficazes fora da estrada, os dois modelos apresentavam diversas características padronizadas, como o motor com 60 cavalos de potência às 4000rpm, os pneus 6,00×16, ou mesmo o suporte para o “jerrycan” de gasolina na traseira esquerda e as luzes de blackout.

Sem haver um verdadeiro equivalente entre os adversários, o veículo mais próximo que os alemães dispunham era o Volkswagen Kübelwagen com motor refrigerado a ar e tracção traseira, modelo que uma reportagem da revista Reader’s Digest de 1943 definia como “um réptil musculado que se arrastava sobre as pedras”.

Foram produzidos mais de 640.000 exemplares do “Jeep”, sendo 351.339 da Willys e cerca de 280.000 da Ford, ou melhor dizendo, cerca de ¼ do total de viaturas produzidas pelos EUA durante a guerra. Foram utilizados em todos os teatros de guerra, fosse na Europa, África, Ásia ou Pacífico, sendo fornecidos aos Aliados em grande número. Neste período transportaram do mais humilde infante às celebridades como o comandante supremo das forças aliadas Dwight D. Eisenhower, o primeiro ministro britânico Winston Churchill, o general George Patton ou o General George Marshall, chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos que referiu o “Jeep” como “a maior contribuição da América para a guerra moderna”.

Após o conflito, milhares de Willys MB e Ford GPW excedentes foram cedidos a países aliados ou acabaram por ser vendidos ao desbarato em leilões um pouco por todo o território norte-americano. Muitos veteranos de guerra puderam adquirir estes 4X4 por centavos de dólar, passando a usar os seus conhecidos “Jeep” como veículos agrícolas ou como práticos descapotáveis para passar na cidade e no campo. Os modelos que não foram adquiridos pelos veteranos militares foram parar às mãos de civis fascinados por possuir este verdadeiro pedaço da história.

Uma vez que a procura por 4×4 civis ultrapassou largamente a oferta dos “Jeep” excedentes de guerra, a Willys iniciou de imediato a produção de uma versão civil do MB, ainda em 1945. Nascia assim o “Civilian Jeep 2A”, abreviado como “CJ-2A” que abriu caminho para toda uma família CJ da Kaiser/AMC/Willys que, a partir de 1986, passaria a ser Jeep Wrangler, cuja versão JL da actualidade é a enésima evolução do genial MB da Segunda Guerra Mundial.